Os contos de Darwin e seu “Livro do Genesis”: ideias do século 19

Cada época tem um jeito de pensar. Nossas avós já usavam energia elétrica, nossos pais já iam de carro ao supermercado e assistiam as notícias à noite. Comemos alimentos industrializados. Conhecemos a distância da lua e o diâmetro do universo. Podemos saber quanta água tem no mar e quanto ar tem na atmosfera.  Tudo isso é totalmente normal para nós. 

Na época de Dom Pedro II e Charles Darwin não era assim...
Os dois viajavam ainda com a mesma velocidade que o rei Davi 3000 anos antes. Uma carta de Lisboa para Paris demorava duas semanas. Depois inventaram o telegrama: as mensagens eram mandadas como os sinais de fumaça dos índios, só que em vez de fumaça usaram fio elétrico e Código Morse, por exemplo: dididi, diiiih-diiiih-diiiih, dididi significava SOS, socorro.  

Em 1842 Samuel Morse mandou a mensagem “o que Deus fez” de Washington a Baltimore. Isso era considerado o auge da comunicação moderna e as pessoas da época se sentiram muito superiores.

Muitas mães morriam depois do parto de infecção, muitos bebês também com tétano do cordão umbilical, chamado o “mal do sétimo dia”. Quase a metade dos soldados ingleses, que foram feridos nas batalhas, morreram de seus ferimentos. Tudo era considerado absolutamente normal, porque tinha sido assim desde sempre.

Desde séculos as pessoas acreditavam em muitas coisas que parecem estranhas hoje em dia. Por exemplo, acreditava-se que havia uma energia no ar que gerava vida, como mofo e os fungos no queijo Gorgonzola, algo que simplesmente aparecia do nada.

A Lei da Pureza da Cerveja Alemã de 1504 proibiu qualquer outra coisa além de cevada, lúpulo e água na cerveja, simplesmente porque não sabiam que existia levedo de cerveja invisível no ar e que gera a fermentação desta bebida. O grande pensador Aristóteles confirmou esta doutrina, de que existe uma origem da vida do nada, e ninguém duvidou durante milênios. 

Só posteriormente, no meio do século 19, Louis Pasteur descobriu que as infecções são causadas por micróbios. Na época Charles Darwin já tinha 40 anos, ele foi criado sem saber nada disso. Os índios do Brasil e a rainha Cleópatra parecem menos ignorantes, com sua mania de tomar banho! Os europeus não eram assim. O grande navegador Vasco da Gama foi não foi recebido na Índia pelo governo local, porque parecia um mendigo fedorento! Ficou com tanta raiva que mandou bombardear a cidade.

Então Luis Pasteur mostrou que basta desinfetar as mãos e os utensílios usados na cirurgia ou no parto para evitar doenças e mortes. Parece ridículo, mas pode-se dizer que uma das maiores descobertas do século 19 foi a importância de lavar as mãos. Uma coisa tão simples salvou a vida de milhões de pessoas. Mostra como aquela época era ainda relativamente primitiva, nem sabiam o que significa higiene! Então nesse ambiente Charles Darwin escreveu suas teorias.
A propósito, mandar os médicos lavar as mãos foi uma tarefa dificílima! Precisou-se de uma mulher muito dedicada com caráter forte para implementar essa ideia! A heroína que conseguiu isso era a inglesa Florence Nightingale. 

Viajou para participar, como enfermeira, da guerra da Criméia naquela época, porque queria ajudar os soldados ingleses que estavam morrendo por seu país.
Florence brigou com os militares, que não queriam saber nada de técnicas novas de enfermagem, como limpar as feridas em vez de deixá-las apodrecer. Só com ajuda dos jornais britânicos da época e com apoio da Rainha Vitória esta mulher conseguiu mudar a história do mundo, contra a vontade dos próprios generais.
Ela fundou a enfermagem moderna. De repente a mortalidade dos soldados feridos caiu de quase 42% para 2%! Não aconteceu nenhum milagre, simplesmente alguém reconheceu que a vida não surge do nada, especialmente as bactérias que causavam a morte destes soldados.

Hoje rimos de tanta ignorância. Outro exemplo eram os marujos que morriam nas viagens: aproximadamente 30% deles não voltavam.  Mas, a ciência moderna do século 19 gerou outro grande progresso. Alguém descobriu que a Vitamina C encontrada nas frutas é necessária para não ficarmos doente. Entretanto não foi nada fácil convencer os responsáveis!

Foram anos de luta de pessoas com ideias “modernas” contra os velhos almirantes ingleses. No final, os seus navios começaram a levar limões. Acabou a falta de vitamina C nas viagens marítimas, e junto com ela a doença escorbuto que tinha matado tantas pessoas nos mares. O limão então era um dos segredos do sucesso da supremacia marítima dos ingleses! Um bando de jovens saudáveis contra um monte de marinheiros enfraquecidos! Chamavam os marinheiros britânicos até de “Limeys”.

Houve ainda mais um progresso nos mares. Muitos navios afundavam porque levavam um excesso de carga. Pareciam com certos caminhões nas estradas brasileiras. Finalmente em 1894, doze anos após a morte de Darwin, o governo mandou pintar uma linha no casco do navio, para mostrar qual era o limite de carga. Demorou milhares de anos, então foi considerado muito, muito moderno.
Por causa destas grandes descobertas como lavar as mãos e levar limões, os homens do século 19 começaram a se achar super esclarecidos, e não tão “ignorantes” quanto seus antepassados.

A ciência entrou em pleno “desenvolvimento”. Pedro II Imperador do Brasil viajou para os Estados Unidos para ver uma exposição mundial. Uma invenção esquisita chamou sua atenção. Um aparelho que transmitia a voz de uma pessoa através de fios elétricos a um pavilhão distante. Ele ficou admirado e disse algo como: “Esse negócio fala!”

Ele descobriu o estande de um inventor desconhecido, e graças a ele o telefone então produziu mais interesse. Hoje achamos estes primeiros aparelhos de telefone muito primitivos, mas na época esta invenção tornou-se algo sensacional! Desde então, podia-se falar com pessoas distantes através de um aparelho e um fio elétrico. Mas o Charles Darwin ainda não sabia nada disso na sua viagem através do mundo, ainda não podia nem mandar um telegrama.
Outra revolução maior aconteceu no trânsito. Construíram longas linhas de ferrovia com locomotivas gigantes, movidos por máquinas de vapor móveis, puxando trens que levavam cargas e pessoas com maior rapidez do que nos milênios passados. Finalmente acabaram com a lentidão de cavalos e jumentos. Finalmente, o homem moderno podia ir para Londres mais rápido do que Cristo para Jerusalém. O maior progresso em séculos! Claro que as pessoas da época se acharam os donos da verdade, muito mais esclarecidas que seus antepassados.

A maior parte do ouro de Minas Gerais foi levada para a Inglaterra financiando a revolução industrial. Assim os ingleses ficavam mais desenvolvidos e mais ricos que as outras nações. Tinham a marinha mais poderosa do mundo. Lindos navios com velas gigantes que levavam mercadorias de um lado do mundo ao outro.

Estes navios se pareciam muito com aquele do filme “Piratas do Caribe”, que era uma cópia do navio original com nome “Bounty”. A famosa linha de Plimsoll para evitar excesso de carga ainda não foi inventada, iria existir apenas na próxima geração. O barco a vapor estava sendo inventado, e ainda não existiram nem mapas do mundo inteiro.

Por isso Charles Darwin viajou pelo Oceano Pacífico: a marinha inglesa precisava fazer mapas dos oceanos. A primeira tarefa desta viagem era descobrir as coordenadas exatas de Rio do Janeiro, e baseado nisso mapear o sul do Oceano Pacifico. Obviamente o conhecimento ainda não estava muito avançado. Enquanto isso o inventor da telegrafia estava ocupado escrevendo artigos em favor da escravidão e tinha que mandar suas mensagens por mais 11 anos em carroça.

Há uma piada de um pastor indo a visitar uma igreja. Ele encontrou um grupo de moleques e perguntou pelo caminho. Depois na igreja ele pergunta aos mesmos moleques se eles queriam ir para o céu. Eles responderam: “O Senhor nem sabe como chegar na igreja, como pode conhecer o caminho para o céu?” Então Charles Darwin da época dos Piratas do Caribe nem sabia as coordenadas do Rio de Janeiro mas pensava que podia explicar a origem da vida.

O século 19 também foi uma época do nacionalismo. Era normal achar que o mais forte tinha o dever de mandar; neste caso a rainha Vitória e o governo Inglês se achavam predestinados a conquistar e governar boa parte do mundo.
Ainda se usava a mão de obra de escravos no Brasil, nos Estados Unidos e em outros países. Era comum, pois se achava que os negros tinham cérebros menores e então não serviam para trabalhos mais acadêmicos. Em 2012 um juiz negro no Supremo Tribunal Federal do Brasil mostrou claramente que isto não é verdade. Mas na época, o mais forte ganhava dos mais fracos, e pessoas brancas mais educadas se consideravam superiores.

As crianças inglesas estavam ainda trabalhando nas minas de carvão para poder comer e trazer comida para suas famílias. O carvão era necessário para manter as fábricas e trens em funcionamento. Com certeza não poderíamos chamar isso de uma sociedade muito esclarecida e moderna, como eles se achavam. Era mesmo uma luta para sobreviver, e os mais fracos e pobres simplesmente acostumavam morrer antes. Às vezes apenas porque não lavavam suas mãos.
Mas a elite da época se achava dona do mundo. Hoje isso parece absurdo, e considera-se a tecnologia de 150 anos atrás muito primitiva. No GPS vemos as coordenadas exatas para achar nosso boteco favorito. Temos fotografias de microscópios eletrônicos e filmes em 3D mostrando os detalhes das bactérias que causam as doenças. Sabemos como funcionam micróbios e sabemos que o DNA contém uma informação extremamente complexa.

Nos microscópios primitivos mal se podia ver uma bactéria, parecia uma bolinha se mexendo. Demoravam várias gerações para mostrar que não se trata de uma “bolinha simples”.  O que na época foi considerado uma forma de vida muito “primitiva” não é absolutamente nada primitiva, atualmente descobrimos o contrário.

Sabemos hoje que a célula mais simples é um sistema incrivelmente complexo, muito mais parecido com uma metrópole como São Paulo com sua administração e planejamento, com todas suas casas, fábricas, meios de transporte e comunicação. Tudo isso e muito mais, em tamanho microscópico. Bill Gates disse que os programas do DNA, que gerenciam a vida, estão muito além do que o homem jamais desenvolveu em termos de complexidade.
As ideias de Charles Darwin e sua Teoria da Evolução das espécies refletem totalmente o pensamento da época. Era lógico que o animal mais ”adaptável” e forte sobreviveu, e os outros foram extintos. Como vimos, era totalmente normal pensar que a vida poderia aparecer do nada. Então por que não crescer asas e começar a voar? Já que a vida pode aparecer do nada, por que não algo tão simples como asas também?

Ninguém tinha a mínima ideia de que estes processos, como o desenvolvimento de uma “simples” asa de um inseto, precisam de uma nanotecnologia e de sistemas como de informática infinitamente mais complexos do que uma nave espacial ou qualquer máquina que se possa imaginar ainda hoje em dia. 
E a origem da vida do nada? Pasteur comprovou que não existe uma chamada “abiogênese”, uma origem de vida do nada. É simplesmente uma lei da biologia.

Hoje todo mundo sabe disso. A vida só pode vir a partir de outra vida que já estava ali antes. A Wikipédia explica este termo “abiogênese”, vida do nada, dizendo que já os gregos acreditavam nisso. Aristóteles apoiou esta tese. Foi seguido por milênios e apenas na época de Darwin foi comprovado o erro.
Curiosamente, logo depois, a mesma página da Wikipédia, segue dizendo que hoje em dia acham que a abiogênese, a criação da vida do nada, teria acontecido faz 4,7 bilhões de anos. Em outras palavras, os que hoje mandam na ciência sabem muito bem que é totalmente impossível que isso aconteça, mas estão totalmente convencidos que aconteceu sim. Porque será que cientistas sabem exatamente que algo não pode ser, mas insistem nisto? Existe uma explicação?A lógica dos espertos...


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