Sou de uma cidade vizinha de Stuttgart, na Alemanha. Perto de onde nasci existia uma loja onde vendiam objetos da era Nazista: capacetes, medalhas, anéis com caveiras e garfos com símbolo de Hitler. Um dia em 1982 se espalhou o boato que o dono desta loja, Konrad Kujau, tinha encontrado os diários de Adolf Hitler. A revista Stern, equivalente a Veja no Brasil, mandou Gerd Heidemann, um repórter muito reconhecido, investigar o caso.
Nos últimos dias da sua vida o ditador teria mandado um avião com documentos pessoais, entre eles seus diários para a Áustria, mas o avião foi derrubado perto da cidade de Desdém. O repórter verificou o caso e descobriu que o avião tinha existido mesmo. Então ele ficou obcecado pelos diários. A situação era muito difícil e perigosa, porque os diários se encontravam na Alemanha comunista. Kujau entregou o primeiro tomo a Heidemann. Peritos analisaram o texto e constaram que era autêntico.
Kujau então recebeu o equivalente a cinco milhões de euros e entregou o resto dos vinte diários, num posto de gasolina na parte comunista de uma rodovia para Berlim. Tratava-se de uma ação clandestina, por isso tudo foi pago com dinheiro vivo, sem recibo. A revista Stern então publicou trechos e fotos do livro. Foi a maior sensação da sua história. As vendas bateram todos os recordes. Heidemann, o repórter, se sentiu no ápice da sua carreira. Apareceu todo orgulhoso com sua descoberta em todas as revistas, jornais e canais da TV da época.
Mas sua felicidade não durou muito tempo. Poucos dias depois descobriram que o tipo de papel usado nos livros foi inventado apenas cinco anos após a morte do suposto autor. De repente acharam mais um monte de outras incongruências. Tratou-se de uma das fraudes mais impressionantes da história!
A obra foi elaborada a partir do diário do Supremo Comando do Exército Alemão, embelezada pela fantasia de Konrad Kujau. Tipo: “Cinco de Janeiro. Minhas tropas perto de Moscou numa batalha tensa. Estou com dor de cabeça e cólicas. O General de Tal está enchendo meu saco. O único que me entende é meu cachorro”. O esquema típico do mentiroso, pegar uma verdade e depois inventar um monte de mentiras para dar credibilidade a seu falso produto final.
O famoso repórter tinha sido premiado por suas reportagens extraordinárias, uma delas até ajudou a derrubar o governo. Mas depois dessa, ele nunca mais iria escrever. Morreu desprezado, pobre e na solidão. As vendas da revista caíram 80%. A confiança na verdade da imprensa sofreu grandemente.
Kujau ficou preso por três anos. Agora ele era muito famoso e conhecido pela qualidade do seu trabalho.
Começou a ganhar um bom dinheiro, vendendo “cópias originais Kujau”, quadros de pintores famosos, com seu nome na tela, atrás dos nomes de Gauguin, Picasso e outros. As pessoas desprezavam a revista e o repórter, mas todo mundo admirava o gênio que conseguira enganar uma das maiores revistas do mundo.
Sua fama era tão grande que sobreviveu a ele: após sua morte sua sobrinha vendeu quadros pintados pelo tio por um total de 290 000 euros. Ela tinha aprendido com o mestre, porém ela mesma nem os pintou! Simplesmente mandou fazer cópias de obras famosas na China. Pagou 700 euros, pintou o nome do tio nele, e vendeu as obras como “falsificações originais de Konrad Kujau” por 3500 euros.
Um dia a casa caiu. Outra aluna do mestre desconfiava. O grande número dos supostos quadros do tio chamava a atenção. No final a sobrinha foi condenada por falsidade ideológica, tendo falsificado o nome do tio. Foi assim que ela lucrou até com a falsificação de falsificações de um falsário famoso! Quanto mais famoso o nome do original, mais vale a falsificação. A assinatura de Adolf Hitler valeu cinco milhões, a de Konrad Kujau 290.000.
Pesquisei um pouquinho sobre o repórter. Uma frase chamou muito minha atenção. Parece com a atitude de muitos escritores e até cientistas de hoje. Ele disse o seguinte: “Estava procurando apenas provas para a autenticidade dos diários. Nunca considerei a ideia que os livros poderiam ter sido uma fraude.” Totalmente cego pela possibilidade de uma fama enorme e de um grande lucro, ele caiu na armadilha. Simplesmente não estava interessado na verdade, mas obcecado pela fama, pela grande descoberta sobre uma pessoa muito famosa.
O pintor e escritor Konrad Kujau fez algo parecido. Não podia ganhar muito mais com suas bugigangas nazistas, então ele usou o nome do grande ditador para agregar maior valor ao seu trabalho artístico.
Estes princípios existem aparentemente desde sempre. Faz 1800 anos escritores antigos já sabiam muito bem como agregar valor às suas obras usando o nome de Jesus, e ainda hoje em dia Richard Dawkins ganha milhões tentando convencer as pessoas que Deus é uma ilusão. Se ele tentasse descobrir uma solução para o problema das drogas e da violência no Brasil ninguém falaria muito sobre ele. “Dawkins e Deus” vende-se bem melhor do que ”Dawkins e Crack”. O grande nome na capa do livro atrai mais interesse. Nestas páginas tentarei desvendar o que há atrás de algumas destas capas.
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